sábado, 4 de setembro de 2010

CRISTIANISMO PURO E SIMPLES

(CITAÇÕES)

INTRODUÇÃO

“A geração ímpia e perversa da qual fa¬lavam milhares de anos atrás os salmistas e os profetas é também a nossa, sempre que nos submetemos a ma-les sistémicos e individuais como se não tivéssemos ou¬tra alternativa.”

"O caminho mais lon¬go é o mais curto para chegar em casa"[1] — tal é a lógica tanto das fábulas quanto da fé.”

“Assim como Soren Kierkegaard antes dele, e de Dietrich Bonhoefifer, seu contemporâneo, Lewis bus¬cou, em Cristianismo puro e simples, nos ajudar a ver a religião com novos olhos, como uma fé radical cujos partidários devem ser comparados a um grupo clandesti¬no agrupado numa zona de guerra, num lugar onde o mal parece predominar, para ouvir mensagens de espe¬rança vindas do lado livre.”

“E um modo de vida que nos desafia sempre a lembrar, como Lewis disse cer-ta vez, que "não existem pessoas comuns", e que "aque¬les de quem fazemos troça, com quem trabalhamos ou nos casamos, os que menosprezamos ou exploramos, são todos imortais"[2]. Quando entramos em sintonia com essa realidade, crê Lewis, nos abrimos para transformar imaginativamente nossas vidas de tal forma que o mal declina e o bem triunfa. E isto que Cristo quis de nós quando tomou para si nossa humanidade, santificou nossa carne e nos pediu em troca que revelássemos Deus uns aos outros. Se o mundo faz essa tarefa parecer impossível, Lewis insiste em que ela não é. Mesmo alguém que ele vê co¬mo "envenenado por uma criação miserável numa casa cheia de ciúmes vulgares e brigas gratuitas"[3] pode estar seguro de que Deus está bem ciente "da máquina gros¬seira que tenta dirigir", e pede-lhe somente para "ir em frente e fazer o possível". O cristianismo que Lewis co¬munga é humano, mas não é fácil: ele nos chama a reco¬nhecer que a maior batalha religiosa não se trava num campo espetacular, mas dentro do coração humano co¬mum, quando, a cada manhã, acordamos e sentimos a pressão do dia a nos afligir e temos de decidir que tipo de imortais queremos ser.”

“Lewis nos lembra, com seu humor e sua verve costumei¬ra: "Quão monótona é a semelhança que une todos os grandes tiranos e conquistadores; quão gloriosa é a di¬ferença dos santos!"[4]
KATHLEEN NORRIS

Livro I
O CERTO E O ERRADO COMO CHAVES PARA A COMPREENSÃO DO SENTIDO DO UNIVERSO


3. A REALIDADE DA LEI

“E claro que podemos dizer que a pedra tem "a forma errada" se pretendemos usá-la para uma construção, ou que uma árvore não é boa porque não faz sombra suficiente. Porém, isso significa tão-so-mente que a pedra ou a árvore não se prestam ao uso que queremos fazer delas; não as culpamos de terem tais ou quais características, a não ser como piada. Te¬mos consciência de que, dado um determinado clima e tipo de solo, a árvore não poderia ser em nada dife¬rente do que é. A árvore que, de nosso ponto de vista, chamamos de "má" obedece às leis de sua natureza tan¬to quanto a que chamamos de "boa"...quando tratamos de seres humanos, existe algo além e acima dos fatos. Existem os fatos (como os homens se comportam) e também uma outra coisa (como deve¬riam se comportar)... Os homens, no entanto, comportam-se de determina¬da maneira e o assunto não pára aí, já que estamos sem¬pre conscientes de que o comportamento deles deveria ser diferente.”


5. TEMOS MOTIVOS PARA NOS SENTIR INQUEITOS

“Tomamos o caminho errado. Se assim for, devemos dar meia-volta. Voltar é o caminho mais rápido.”

“... o Ser por trás do universo está muitíssimo interessado na conduta correta - na lealdade, no altruísmo, na co¬ragem, na boa fé, na honestidade e na veracidade. Nes¬se sentido, devemos concordar com a visão do cristia¬nismo e de outras religiões de que Deus é "bom".”

“Deus é o nosso único alento, mas também o nosso terror supremo; é a coisa de que mais precisamos, mas também da qual mais queremos nos esconder.”

“Se você buscar a verdade, encontrará a consolação no final; se buscar o consolo, não terá nem o consolo nem a verdade — terá somente uma melosidade vazia que culminará em deses¬pero.”

Livro IINO QUE ACREDITAM OS CRISTÃOS

1.AS CONCEPÇÕES CONCORRENTES DE DEUS

“Ou seja, o ateísmo é uma solução simplista.”

2. A INVASÃO

“É uma religião que ninguém poderia adi¬vinhar. Se ela nos oferecesse o tipo de universo que es¬peraríamos encontrar, eu acharia que ela havia sido in-ventada pelo homem. Porém, a religião cristã não é nada daquilo que esperávamos; apresenta todas as mudanças inesperadas que as coisas reais possuem.”

“... o cristianismo, se¬gundo o qual estamos num mundo bom que se perdeu, mas que ainda assim conserva a memória de como de¬veria ser.”

“Um território ocupado pelo inimigo — assim é este mundo. O cristianismo é a história de como o rei por direito desembarcou disfarçado em sua terra e nos cha¬ma a tomar parte numa grande campanha de sabota¬gem.”


3. A ALTERNATIVA ESTARRECEDORA

“A felicidade que Deus quis para suas criaturas mais elevadas é a fe¬licidade de estar, de forma livre e voluntária, unidas a ele e aos demais seres num êxtase de amor e deleite ao qual os maiores arroubos de paixão terrena entre um ho-mem e uma mulher não se comparam. Por isso, essas criaturas têm de ser livres.”

“... a longa e terrível história da tenta¬tiva do homem de descobrir a felicidade em outra coisa que não Deus.
A razão pela qual essa tentativa não pode ser bem-sucedida é a seguinte: Deus nos criou como um ho¬mem inventa uma máquina. Um carro é feito para ser movido a gasolina. Deus concebeu a máquina humana para ser movida por ele mesmo. O próprio Deus é o com¬bustível que nosso espírito deve queimar, ou o alimento do qual deve se alimentar. Não existe outro combustível, outro alimento. Esse é o motivo pelo qual não podemos pedir que Deus nos faça felizes e ao mesmo tempo não dar a mínima para a religião. Deus não pode nos dar uma paz e uma felicidade distintas dele mesmo, porque fora dele elas não se encontram. Tal coisa não existe.”

4.O PENITENTE PERFEITO

“Deus chegou sob for¬ma humana no território ocupado pelo inimigo.”

“A principal crença cristã é que a morte de Cristo de algum modo acertou nossas contas com Deus e nos deu a possibilidade de começar de novo.”


“Em que tipo de "buraco" caíra o homem? Ele pro¬curara ser auto-suficiente e se comportara como se per¬tencesse a si mesmo. Em outras palavras, o homem decaído não é simplesmente uma criatura imperfeita que precisa ser melhorada; é um rebelde que precisa depor as armas. Depor as armas, render-se, pedir perdão, dar-se conta de que tomou o caminho errado, estar disposto a começar uma vida nova do zero — só isso pode nos "tirar do buraco". Esse processo de rendição, movimen¬to de marcha a ré a toda velocidade, é o que o cristia¬nismo chama de arrependimento. Mas, veja só, o arre¬pendimento não é nada agradável. E bem mais difícil que simplesmente engolir um sapo. Significa desapren¬der toda a presunção e a obediência à vontade própria que nos foram incutidas por milhares de anos; signifi¬ca matar uma parte de si mesmo e submeter-se a uma espécie de morte.”

“Lembre que esse arrependimento, essa entrega vo¬luntária à humilhação e a um tipo de morte não é algo que Deus exige de nós para que nos aceite de volta ou algo do qual pode nos livrar, se assim decidir. É simples¬mente uma descrição de como é o próprio retorno a Deus. Se pedimos que ele nos aceite sem esse arrepen¬dimento, estamos na verdade pedindo para voltar sem voltar. Não é possível. Pois muito bem, temos de nos arrepender. Entretanto, a maldade que nos faz precisar disso nos impede de fazê-lo. Será que podemos arre¬pender-nos se Deus nos ajudar? Sim, mas o que signi¬fica essa ajuda? Significa que Deus, por assim dizer, co¬loca um pouco de si mesmo em nós. Empresta-nos um pouco da sua razão e assim nos tornamos capazes de pensar; nos dá um pouco do seu amor e, dessa maneira, amamos uns aos outros.”


5. CONCLUSÃO PRÁTICA

“O organismo vivo não se caracteriza por nunca se ferir, mas sim por ter um po¬der, mesmo que limitado, de recuperação. Da mesma forma, o cristão não é um homem que nunca erra, mas um homem capaz de se arrepender, de levantar a cabe¬ça e seguir em frente após cada queda. Ele é assim por¬que a vida de Cristo está dentro dele, sempre pronta para recuperá-lo, habilitando-o a imitar (em certa medida) a morte voluntária que o próprio Cristo levou a cabo.
É por isso que o cristão se encontra numa situação diferente da de outras pessoas que tentam ser boas. Es¬tas esperam, por ser boas, agradar a Deus, quando nele acreditam; ou, caso não acreditem, esperam pelo me¬nos receber a aprovação dos homens bons. Já o cristão pensa que todo bem que faz advém da vida de Cristo que o anima interiormente. Não pensa que Deus nos amará mais por sermos bons, mas que Deus nos fará bons porque nos amou primeiro, do mesmo modo que o teto de uma estufa não atrai o sol por ser brilhante, mas brilha porque o sol irradia sobre ele.”


Livro III CONDUTA CRISTÃ

AS TRÊS PARTES DA MORAL

“É impossível tornar o homem bom pela força da lei; e, sem homens bons, não pode haver uma boa sociedade.”

“Parece-nos, portanto, que, para pensar a respeito da moral, temos de levar em conta os três departamentos: as relações entre os homens; as coisas que se passam no interior de cada ser humano; e as relações entre o ho¬mem e o poder que o criou.”

AS VIRTUDES CARDEIAIS

“São elas: a PRUDÊN¬CIA, a TEMPERANÇA, a JUSTIÇA e a FORTALEZA.”

“Deus não detesta menos os intelectualmente preguiçosos do que qualquer outro tipo de preguiçoso. Se você está pen¬sando em se tornar cristão, eu lhe aviso que estará em¬barcando em algo que vai ocupar toda a sua pessoa, inclu-sive o cérebro.”

“O homem que transforma suas partidas de golfe ou sua motocicle¬ta no centro de sua vida, ou a mulher que dedica todos os seus pensamentos a roupas, a partidas de bridge ou ao seu cachorro, estão sendo tão intemperantes quanto o sujeito que bebe muito. E claro que, visto de fora, o pro¬blema não é tão evidente: a mania de golfe ou de bridge não deixa a pessoa caída na sarjeta. Deus, porém, não se deixa enganar pelas aparências.”

“A verdade é que as ações corretas praticadas pelas razões erradas não nos ajudam a construir a qualidade inter¬na ou caráter chamada "virtude", e é essa qualidade ou caráter que realmente interessa.”

MORALIDADE SOCIAL

“Nunca teve a intenção de substituir ou destituir as artes e ciências profanas: tem, antes, a função de um diretor que as destina às suas fun¬ções corretas e lhes infunde a energia de uma vida nova na medida em que elas se colocam à sua disposição.”

“Posso repetir "faça aos outros o que gostaria que fizessem para você" até cansar, mas não conseguirei vi¬ver assim se não amar ao próximo como a mim mes¬mo; só poderei aprender esse amor quando aprender a amar a Deus; e só aprenderei a amá-lo quando apren¬der a obedecê-lo. E assim, como eu já tinha dito, somos conduzidos a um aspecto mais interior da questão — saímos da problemática social e entramos na problemá¬tica religiosa. O caminho mais longo é o mais curto para chegar em casa.”

MORALIDADE E PSICANÁLISE

“A psicaná¬lise em si mesma, porém, separada de todos os enxertos filosóficos feitos por Freud e por outros, não está de for¬ma alguma em contradição com o cristianismo.”

“Ora, o que a psicanálise se propõe a fazer é eliminar os sentimentos anormais, ou seja, dar ao homem uma matéria-prima melhor para os seus atos de escolha; a moralidade trata destes atos em si mesmos.”


“O homem pode dar primazia a si mesmo ou aos outros. E este livre-arbítrio é a única coisa da qual a moralidade se ocupa.
O mau material psicológico não é um pecado, mas uma doença. Não é motivo para arrependimento, mas algo a ser curado, o que, por sinal, é muito im-portante. Os seres humanos julgam uns aos outros pe¬las ações externas. Deus os julga por suas escolhas mo¬rais.”


“Quando um homem melhora, torna-se cada vez mais capaz de perceber o mal que ainda existe dentro de si. Quando um homem piora, torna-se cada vez menos capaz de captar a própria maldade. Um homem moderadamente mau sabe que não é muito bom; um homem completamente mau acha que está coberto de razão. Nós sabemos disso intuitivamente. Entendemos o sono quando estamos acordados, não quando adorme¬cidos.”


MORALIDADE SEXUAL

“Deus conhe¬ce nossa situação; ele não nos julgará como se não ti¬véssemos dificuldades a superar. O que realmente im¬porta é a sinceridade e a firma vontade de superá-las.”

“E bem verdade que os princípios cristãos são mais rígidos que os outros; no entanto, acreditamos que, para obe¬decer-lhes, você poderá contar com uma ajuda que não terá para obedecer aos outros.”

“Podemos ter certeza de que a castidade perfeita — como a caridade perfeita — não será alcançada pelo mero esforço humano. Você tem de pedir a ajuda de Deus. Mesmo depois de pedir, poderá ter a impressão de que a ajuda não vem, ou vem em dose menor que a neces¬sária. Não se preocupe. Depois de cada fracasso, levan¬te-se e tente de novo. Muitas vezes, a primeira ajuda de Deus não é a própria virtude, mas a força para tentar de novo. Por mais importante que seja a castidade (ou a coragem, a veracidade ou qualquer outra virtude), esse processo de treinamento dos hábitos da alma é ainda mais valioso. Ele cura nossas ilusões a respeito de nós mesmos e nos ensina a confiar em Deus. Aprende¬mos, por um lado, que não podemos confiar em nós mesmos nem em nossos melhores momentos; e, por ou¬tro, que não devemos nos desesperar nem mesmo nos piores, pois nossos fracassos são perdoados. A única ati¬tude fatal é se dar por satisfeito com qualquer coisa que não a perfeição.”

“A virtude - mesmo o esforço para alcançá-la — traz a luz; a liber¬tinagem traz apenas brumas.”

“Os pecados da carne são maus, mas, dos pecados, são os menos graves. Todos os prazeres mais tetríveis são de natureza puramente espiritual: o prazer de provar que o próximo está errado, de tiranizar, de tratar os outros com desdém e superioridade, de estragar o prazer, de difamar. São os prazeres do poder e do ódio. Isso por¬que existem duas coisas dentro de mim que competem com o ser humano em que devo tentar me tornar. São elas o ser animal e o ser diabólico. O diabólico é o pior dos dois. E por isso que um moralista frio e pretensamente virtuoso que vai regularmente à igreja pode es¬tar bem mais perto do inferno que uma prostituta. E claro, porém, que é melhor não ser nenhum dos dois.”

O CASAMENTO CRISTÃO

“O amor nesse segundo sentido - distinto da "paixão amorosa" - não é um mero sentimento. E uma unidade profunda, man¬tida pela vontade e deliberadamente reforçada pelo há¬bito; é fortalecida ainda (no casamento cristão) pela graça que ambos os cônjuges pedem a Deus e dele re¬cebem.”

“Nossa experiência é preenchida pelas cores dos livros, peças de teatro e filmes do cinema, e é necessário ter paciência para delas desentranhar e para separar o que aprendemos da vida por nós mesmos.”


“Em ambos os casos, se você perseverar, o arrepio da novidade, quando morre, é com¬pensado por um interesse mais sereno e duradouro. Além disso (e mal consigo lhe dizer o quanto isto é importan¬te), são exatamente as pessoas dispostas a sofrer a perda do frêmito inicial e a acatar esse interesse mais sóbrio que têm maior probabilidade de encontrar novas emo¬ções em campos diferentes. O homem que aprendeu a voar e se tornou um bom piloto subitamente descobre a música; o homem que se estabeleceu num local idílico descobre a jardinagem.
Segundo me parece, essa é uma pequena parte do que Cristo quis dizer quando afirmou que nada pode viver realmente sem antes morrer. Simplesmente não vale a pena tentar manter viva uma sensação forte e fu¬gaz: é a pior coisa que podemos fazer. Deixe o frisson ir embora — deixe-o morrer. Se você passar por esse perío¬do de morte e penetrar na felicidade mais discreta que o segue, passará a viver num mundo que a todo tempo lhe dará novas emoções. Mas, se fizer das emoções for¬tes a sua dieta diária e tentar prolongá-las artificialmen¬te, elas vão se tornar cada vez mais fracas, cada vez mais raras, até você virar um velho entediado e desiludido para o resto da vida.”

O PERDÃO

“Conseqüentemente, o cristianismo não quer ver reduzida a um átomo a aversão que sentimos pela crueldade e pela deslealdade. Devemos odiá-las. Não devemos desdizer nada do que dissemos a esse res¬peito. Porém, devemos odiá-las da mesma forma que odiámos nossos próprios atos: sentindo pena do homem que as praticou e tendo, na medida do possível, a esperança de que, de alguma forma, em algum tempo e lu¬gar, ele possa ser curado e se tornar novamente um ser humano.”

“Lembre-se de que nós, cristãos, acreditamos que o homem vive eterna-mente. Logo, o que realmente importa são as pequenas marcas deixadas e as pequenas mudanças feitas na parte central e interior da alma, as quais vão nos tornar, a longo prazo, numa criatura celestial ou infernal.”

“Em outras pa¬lavras, os sentimentos de ressentimento e de vingança de¬vem ser simplesmente exterminados de dentro de nós. Bem sei que ninguém tem o poder de decidir que, des¬te momento em diante, não terá tais sentimentos. As coisas não acontecem assim. Quero somente dizer que, toda vez que esses sentimentos levantarem a cabeça, de¬vemos espancá-la — dia após dia, ano após ano, até o fim da nossa vida. É um trabalho árduo, mas não é im¬possível tentar executá-lo.”

“Admito que isso significa amar pessoas que não têm nada de amáveis. Mas pergunto: será que eu mesmo sou uma pessoa digna de ser amada? Amo a mim mes¬mo simplesmente porque sou eu mesmo. Deus quer que amemos a todas as criaturas, todos os "eus", da mesma forma e pela mesma razão: apenas, no caso pessoal de cada um, já deu o resultado certo da conta para nos en¬sinar como é que se soma. Devemos, a partir disso, aplicar a regra a todas as outras pessoas. Talvez isso se tor¬ne mais fácil se lembrarmos que é dessa forma que ele nos ama. Não pelas belas qualidades que julgamos pos¬suir, mas simplesmente porque cada um de nós é um "eu". Pois, na realidade, não existe mais nada em nós que seja digno de amor: nós, que encontramos um prazer tão grande no ódio que abdicar dele é mais difícil que largar a bebida ou o cigarro...”





O GRANDE PECADO

“Sempre que constatamos que nossa vida religiosa nos faz pensar que somos bons — sobretudo, que somos melhores que os outros —, po¬demos ter certeza de que estamos agindo como mario¬netes, não de Deus, mas do diabo.”

“Não pense que, se você conhecer um homem verdadeiramente humilde, ele será o que as pessoas cha¬mam de "humilde" hoje em dia: não será nem uma pes¬soa submissa ou bajuladora, que vive lhe dizendo que não é nada. Provavelmente, o que você vai pensar dele é que se trata de um camarada animado e inteligente, que realmente se interessou pelo que você tinha a lhe di¬zer. Se você não simpatizar com ele, será porque sente um pouco de inveja de alguém que parece contentar-se tão facilmente com a vida. Ele não estará pensando so¬bre a humildade; não estará pensando em si mesmo de modo algum.”


A CARIDADE

“Mas o amor no sentido cristão não é uma emoção. Não é um estado do senti-mento, mas da vontade: aquele estado da vontade que temos naturalmente com a nossa pessoa, mas devemos aprender a ter com as outras pessoas.”

“Normalmente, a afeição natural deve ser encorajada. No entanto, seria um erro pensar que o caminho para se obter a caridade consiste em sentar-se e tentar fabri¬car bons sentimentos.”

“Não perca tempo perguntando-se se você "ama" o próximo ou não; aja como se amasse. Assim que colocamos isso em prá¬tica, descobrimos um dos maiores segredos. Quando você se comporta como se tivesse amor por alguém, logo começa a gostar dessa pessoa. Quando faz mal a alguém de quem não gosta, passa a desgostar ainda mais dessa pes¬soa. Já se, por outro lado, lhe fizer um bem, verá que a aversão diminui.”

“Sempre, porém, que fizermos o bem ao pró¬ximo por ser ele um "eu" igual a nós, criado por Deus, que deseja sua própria felicidade como nós desejamos a nossa, teremos aprendido a amá-lo um pouco mais ou, no mínimo, a desgostar dele um pouco menos.”

“O Bem e o Mal aumentam ambos à velocidade dos juros compostos. E por isso que as pequenas decisões que eu ou você tomamos todos os dias têm tanta im¬portância.”

“Aja como se você amasse. Não fique sentado tentando fabricar esse sentimento. Pergunte a si mesmo: "Se es¬tivesse certo de que amasse a Deus, o que eu faria?" Quando encontrar a resposta, vá e faça.”

“Ninguém con¬segue ter sempre o sentimento de devoção: e, mesmo que conseguisse, não são os sentimentos que mais im¬portam a Deus. O amor cristão, seja para com Deus, seja para com os homens, é um assunto da vontade.”


A ESPERANÇA

“A esperança é uma das virtudes teológicas. Isso quer dizer que (ao contrário do que o homem moderno pen¬sa) o anseio contínuo pelo mundo eterno não é uma forma de escapismo ou de auto-ilusão, mas uma das coi¬sas que se espera do cristão.”

“Foi quando os cristãos deixa¬ram de pensar no outro mundo que se tornaram tão incompetentes neste aqui. Se você aspirar ao Céu, ga¬nhará a Terra "de lambuja"; se aspirar à Terra, perderá ambos.”

“Tenho de man¬ter viva em mim a chama do desejo pela minha verda¬deira terra natal, a qual só encontrarei depois da morte; e jamais permitir que ela seja arrasada ou caia no esque¬cimento. Tenho de fazer com que o principal objetivo de minha vida seja buscar essa terra e ajudar as outras pessoas a buscá-la também."

A FÉ

“Na verdade, eu partia do pressuposto de que a mente é completa¬mente regida pela razão, o que não é verdade.”

“A fé, no sentido em que estou usando a palavra, é a arte de se aferrar, apesar das mudanças de humor, àquilo que a razão já aceitou.”

“E por isso que a fé é uma virtude tão necessária: se não colocar os humores em seu devido lugar, você não poderá jamais ser um cristão firme ou mesmo um ateu firme; será apenas uma criatura hesitante, cujas crenças dependem, na ver¬dade, da qualidade do clima ou da sua digestão naque¬le dia. Conseqüentemente, temos de formar o hábito da fé.
O primeiro passo para que isso aconteça é reco¬nhecer que os sentimentos mudam. O passo seguinte, se você já aceitou o cristianismo, é garantir que algumas de suas principais doutrinas sejam mantidas deliberadamente diante dos olhos de sua mente por alguns mo¬mentos do dia, todos os dias. É por esse motivo que as orações diárias, as leituras religiosas e a freqüência aos cultos são partes necessárias da vida cristã. Temos de nos recordar continuamente das coisas em que acreditamos. Nem essa crença nem nenhuma outra podem perma¬necer vivas automaticamente em nossa mente. Têm de ser alimentadas. Aliás, se examinarmos um grupo de cem pessoas que perderam a fé no cristianismo, me pergun¬to quantas delas o terão abandonado depois de conven¬cidas por uma argumentação honesta. Não é verdade que a maior parte das pessoas simplesmente se afasta, como que levadas pela correnteza?”

“Acrescento agora que o segundo passo consiste em empenhar um esforço dedicado para pra¬ticar as virtudes cristãs.”

“Nenhum homem sabe realmente o quanto é mau até se esforçar muito para ser bom.”

“A principal coi¬sa que aprendemos quando tentamos praticar as virtu¬des cristãs é que fracassamos.”

A FÉ

“Quando digo "descobrir", quero dizer exatamente isso: não é o mesmo que repetir palavras como um pa¬pagaio. Qualquer criança que tenha recebido a educa¬ção cristã mais elementar aprende rapidamente que o homem não tem nada a oferecer a Deus que já não seja dele, e que nem isso conseguimos oferecer sem surru¬piar uma parte para nós. Mas estou falando de uma des-coberta real, advinda da experiência pessoal.”

“Assim, em cer¬to sentido, a estrada que nos leva de volta a Deus é a do esforço moral, a via da auto-superação. Mas, em outro sentido, não é o esforço que nos levará para casa. Toda a força que fazemos nos conduz ao momento crucial em que nos voltamos para Deus e lhe dizemos: "O Se¬nhor tem de fazer isso. Não consigo."

“É a mudan¬ça do sentimento de confiança em nossos próprios es¬forços para um estado em que nos desesperamos com¬pletamente e deixamos tudo nas mãos de Deus.”

“E, num outro sentido ainda, é claro que deixar tudo nas mãos de Cristo não signifi¬ca que devemos parar de nos esforçar. Confiar nele sig¬nifica tentar fazer tudo o que ele disse. Não há sentido em dizer que confiamos em tal pessoa se não aceitamos seus conselhos. Logo, se você realmente se entregou nas mãos dele, conclui-se daí que está tentando obedecer-lhe. No entanto, está tentando de uma forma nova, menos preocupada. Não está fazendo essas coisas para ser sal¬vo, mas porque ele já começou a salvá-lo. Não está es¬perando ganhar o Paraíso como recompensa das suas ações, mas quer inevitavelmente agir de uma determi¬nada forma porque já tem dentro de si os primeiros e tênues vislumbres do Paraíso.”


“O esforço moral sério é a única coisa que pode nos conduzir ao ponto de jogar a toalha. A fé em Cristo é a única coisa que pode nos sal¬var do desespero nesse ponto: e, dessa fé, é inevitável que surjam boas ações.”

“A resposta a esse absurdo é que, se o que você chama de "fé" em Cris¬to não implica dar atenção ao que ele disse, ela não é fé de maneira alguma — nem Fé nem confiança, mas ape¬nas a aceitação mental de alguma teoria a seu respeito.”

Livro IVALÉM DA PERSONALIDADE OUOS PRIMEIROS PASSOS NA DOUTRINADA TRINDADE

1. CRIAR E GERAR

“Este mundo é como o ateliê de um grande escultor. Nós so¬mos as estátuas, e corre por aí o boato de que alguns de nós, um dia, ganharão a vida.”


2. UM DEUS EM TRÊS PESSOAS

“Só os cristãos fazem idéia de como as almas humanas podem ser assumidas pela vida divina e continuar sendo elas mesmas — aliás, ser mui¬to mais "elas mesmas" do que antes.
Avisei que a Teologia é um assunto prático. O obje¬tivo único da nossa existência é ser assumidos pela vida divina.”

“...o simples cristão ajoelha-se e faz suas orações, tentando entrar em contato com Deus. Porém, se ele é cristão, sabe que o que o induz a orar é também Deus: Deus, por assim dizer, dentro dele.”

“Deus é também aquilo, dentro dele, que o impele — a força motriz. Deus, por fim, é a estrada ou a ponte que ele percorre para chegar a seu objetivo. Assim, toda a vida tríplice do Ser tripessoal en¬tra em ação nesse quarto humilde onde um homem co¬mum faz suas orações. O homem está sendo capturado por um tipo superior de vida — o que chamei de zoé ou vida espiritual: está sendo atraído para dentro de Deus pelo próprio Deus, sem deixar de ser ele mesmo.
E foi assim que começou a Teologia. As pessoas já conheciam Deus de forma mais ou menos vaga. Então veio um homem que dizia ser Deus; um homem que, no entanto, ninguém conseguia rejeitar como um luná¬tico. Esse homem fez com que as pessoas acreditassem nele. Essas pessoas voltaram a encontrar-se com ele de¬pois de tê-lo visto ser assassinado. Por fim, tendo-se cons¬tituído numa pequena sociedade ou comunidade, essas pessoas de alguma forma descobriram a Deus dentro de si próprias, dizendo-lhes o que fazer e tornando-as capazes de atos que até então eram impossíveis. Quando entenderam tudo isto, elas chegaram à definição crista do Deus tripessoal.”


“Quando se trata do conhecimento de Deus, a ini¬ciativa cabe inteiramente a ele. Se ele não se revelar, nada que você fizer o capacitará a encontrá-lo. E, na verda¬de, ele se dá a conhecer muito mais a certas pessoas que a outras — não porque tenha predileções, mas porque é impossível que ele se revele ao homem cuja mente e cujo caráter estejam em más condições. Da mesma forma, os raios do sol, apesar de também não terem predile¬ções, não se refletem tão bem num espelho empoeirado quanto num espelho polido.”


“Deus só pode se revelar verdadeiramente para ho¬mens de verdade. Isso não significa apenas homens in¬dividualmente bons, mas homens unidos entre si num único corpo, amando-se e auxiliando-se mutuamente, revelando Deus uns aos outros. Pois é assim que Deus quer que a humanidade seja: como os músicos de uma orquestra, como os órgãos de um corpo.
Em conseqüência, o único instrumento verdadei¬ramente adequado para conhecer Deus é a comunidade cristã como um todo, a comunidade dos que juntos o aguardam.”

3. O TEMPO E ALÉM DO TEMPO

“Deus não precisa se afobar no fluxo de tempo deste universo, assim como um escritor não precisa vi¬ver o tempo imaginário de seu romance. Ele pode dar atenção infinita a cada um de nós. Nunca teve de nos tratar como a uma massa. Você está sozinho na com¬panhia dele como se fosse o único ser que ele tivesse criado. “

4. A BOA INFECÇÃO

“Da mesma maneira, temos de conceber que o Fi¬lho, por assim dizer, desde sempre fluí do Pai, como a luz flui da lâmpada, ou o calor do fogo, ou os pensa-mentos da mente. Ele é a auto-expressão do Pai — o que o Pai tem a dizer. E nunca houve um tempo em que o Pai ficou calado. “

“Aquilo que nasce da vida conjunta do Pai e do Filho é uma pes¬soa real; é, com efeito, a terceira das três pessoas de Deus.”

“Vendo a questão do outro lado, cada um de nós tem de penetrar nessa com-plexidade interna, assumir seu lugar nessa dança. Não existe outra maneira de se alcançar e usufruir a felici¬dade para a qual fomos criados. Saiba você que não só as coisas más, mas também as boas, são contraídas como uma espécie de infecção. Se você quer se aquecer, tem de se aproximar do fogo; se quer se molhar, tem de en¬trar debaixo d'água. Se quer a alegria, o poder, a paz e a vida eterna, tem de se aproximar ou mesmo penetrar naquilo que as contém. “

“A ofer¬ta que o cristianismo faz se resume no seguinte: se dei¬xarmos Deus agir, poderemos vir a compartilhar da vida de Cristo. Então, partilharemos de uma vida que foi gerada, não criada; uma vida que sempre existiu e sem¬pre existirá. Cristo é o Filho de Deus. Se participarmos desse tipo de vida, também seremos filhos de Deus. Amaremos o Pai como o Filho o ama, e o Espírito San¬to despertará em nós. Cristo veio a este mundo e se fez homem a fim de disseminar nos outros homens o tipo de vida que ele possui - por meio daquilo que chamo de "boa infecção". Todo cristão deve tornar-se um peque-no Cristo. O propósito de se tornar cristão não é outro senão esse.”


5. OS TEIMOSOS SOLDADINHOS DE CHUMBO


“O atual estado de coisas é o seguinte: os dois tipos de vida são não apenas completamente diferentes entre si (o que sempre foram e sempre serão), mas também opostos. A vida natural de cada um de nós é uma coisa egocêntrica, que quer ser paparicada e admirada, quer tirar vantagem das outras vidas e usar para seu proveito o universo inteiro.”

“E mais: assim como estão todos ligados uns aos outros, estão todos ligados a Deus. Agora mesmo, neste exato momento, todos os homens, mulhe¬res e crianças do mundo inteiro só respiram e sentem por¬que Deus, por assim dizer, os "mantém funcionando".
Logo, quando o Cristo se torna homem, não é o mesmo que se você se tornasse um determinado solda¬dinho de chumbo. E como se algo que sempre afetou toda a massa da humanidade passasse, num determinado ponto, a afetá-la de maneira nova. A partir desse pon¬to, o efeito se espalha por todo o gênero humano. Afe¬ta não só as pessoas que viveram depois de Cristo, mas também as que viveram antes dele; afeta inclusive as que nunca ouviram falar dele.”

“A humanidade já foi "salva" em princípio. Nós, in¬divíduos, temos de nos apropriar dessa salvação. Mas o trabalho pesado - que nunca conseguiríamos levar a cabo sozinhos - já foi feito. Não precisamos tentar esca¬lar a vida espiritual pela nossa própria força, pois ela já desceu sobre a raça humana. Se simplesmente nos abrir¬mos ao Homem que a possuiu em sua plenitude, Ho-mem que, apesar de ser Deus, também é verdadeira¬mente humano, ele a fará funcionar em nós e por nós. Lembre-se do que eu disse sobre a "boa infecção". Um Ser da nossa raça já foi infectado por essa nova vida; se nos aproximarmos dele, seremos infectados também.”

DUAS NOTAS

“O cristianismo não concebe os indivíduos humanos como meros membros de um grupo, ou itens numa lista, mas como órgãos num cor¬po - uns diferentes dos outros, e cada qual oferecendo uma contribuição própria e insubstituível.”

O DIVINO FINGIMENTO

“Com muita freqüên¬cia, a única maneira de adquirir uma qualidade consis¬te em comportar-se como se já a tivesse.”

“Porém, acima de tudo, Cristo opera em nós através dos outros seres humanos, e neles através de nós.”


“Mas nunca, nunca deposite toda a sua fé num ser humano, mesmo que seja a melhor e a mais sá¬bia pessoa do mundo. Existe uma porção de coisas interessantes que você pode fazer com areia; mas não vá construir uma casa sobre ela.”


“Trata-se de um Ho¬mem vivo, ainda tão homem quanto você e ainda tão divino quanto era quando criou o mundo, que realmen¬te chega para interferir em seu eu mais profundo, para matar em você o homem velho e substituí-lo pelo tipo de alma que ele mesmo tem.”

“Por outro lado, será que o que um homem faz quando é pego com a guarda baixa não é o melhor sinal de que tipo de homem ele é na realidade? Não é a verdade que sempre se evidencia quando o homem não tem tempo de vestir seu disfarce?”

“Se (como eu disse an¬tes) o que mais importa é o que somos, não o que faze-mos - se, com efeito, o que fazemos é importante so¬bretudo na medida em que revela o que somos -, a con¬clusão inescapável a que chego é que a mudança mais urgente a que devo me submeter é uma mudança que meus esforços diretos e voluntários não podem realizar.”

“Depois dos primeiros passos na vida cristã, nos damos conta de que tudo o que realmente precisa mudar na alma só pode ser feito por Deus.”

“Deus olha para você como se você fosse um pequeno Cristo. O Cristo está de pé a seu lado para operar essa transformação em você.”

8. O CRISTIANISMO É DIFÍCIL OU FÁCIL?

“No capítulo antetior, consideramos a idéia cristã de "revestir-se de Cristo", ou seja, de "vestir-se" de filho de Deus para tornar-se enfim um filho de verdade.”

“E todo o cristianismo. O cristia¬nismo não nos oferece nada além disso.”

“Não se engane — se você está realmente disposto a tentar aten¬der a todas as exigências que se impõem ao seu ser natu¬ral, saiba que não lhe restará o suficiente para continuar vivendo. Quanto mais você obedecer à sua consciência, tanto mais ela lhe cobrará. “

“A via cristã é diferente: é mais difícil e é mais fácil. Cristo diz: "Quero tudo o que é seu. Não quero uma parte do seu tempo, uma parte do seu dinheiro e uma par¬te do seu trabalho: quero você. Não vim para atormen¬tar o seu ser natural, vim para matá-lo. As meias-medidas não me bastam. Não quero cortar um ramo aqui e outro ali; quero abater a árvore inteira. Não quero ras-par, revestir ou obturar o dente; quero arrancá-lo. En¬tregue-me todo o ser natural, não só os desejos que lhe parecem maus, mas também os que se afiguram inocen¬tes - o aparato inteiro. Em lugar dele, dar-lhe-ei um ser novo. Na verdade, dar-lhe-ei a mim mesmo: o que é meu se tornará seu."

“O caminho do covarde é também o caminho mais perigoso.”

“E fácil perder esse fato de vista. E fácil pensar que a Igreja tem muitos objetivos diferentes - cuidar da educação, construir edifícios, en¬viar missões, organizar cerimônias.”

“Do mesmo modo, a Igreja só existe para reabsorver os homens em Cristo, para fazer deles pequenos Cristos. E, se isso não acontece, as catedrais, o clero, as missões, os sermões, a própria Bíblia não passam de uma perda de tempo.”

AVALIAR O CUSTO

"A única ajuda que lhes darei é a ajuda de que vocês precisam para ser per-feitos. Pode até ser que vocês queiram menos que isso; mas eu não lhes darei menos."

“...o mesmo Auxiliador que não aceita ao final nenhuma outra coisa que não seja a perfeição absoluta também se compraz com o mais ínfimo e titubeante esforço que você empreende para cumprir o menor dos seus deveres.”

"Deus se agrada facilmente, mas não se satisfaz com facilidade". (George MacDonald),

“A conseqüência prática é a seguinte: por um lado, mesmo que Deus exija a perfeição, você não precisa em absoluto se desanimar com suas tentativas atuais de ser bom, ou mesmo com seus atuais fracassos. Toda vez que você fracassar, ele o colocará novamente em pé. E ele tem perfeita consciência de que seus próprios esforços não o aproximarão em nada da perfeição.”

“Por outro lado, nenhum grau de santidade ou heroísmo, nem mesmo os graus alcançados pelos maio¬res entre os santos, está além do que ele se determina a produzir em cada um de nós no final. A tarefa não fi¬cará terminada nesta vida; mas ele pretende nos levar tão longe quanto possível antes de morrermos.”

“Você pensava que seria transfor¬mado num simpático chalezinho, mas ele está construin¬do um palácio no qual pretende habitar em pessoa.”


AS PESSOAS OU NOVAS CRIATURAS

“Se o cristia¬nismo é verdadeiro, é necessário que (a) qualquer cristão seja melhor do que ele mesmo seria se não fosse cris¬tão; e (b) todo aquele que se tornar cristão seja melhor do que era antes.”

“As únicas coisas que podemos conservar são as que entregamos a Deus. As que guardamos para nós são as que perderemos com certeza.”


“Um dos perigos de se ter muito di¬nheiro é que você pode ficar satisfeito com o tipo de fe¬licidade que o dinheiro pode comprar e, assim, pode deixar de perceber o quanto precisa de Deus. Quando tudo parece depender do simples ato de assinar um che¬que, você pode se esquecer de que, a cada momento, depende totalmente de Deus.”

“E muito diferente a situação das pessoas más e de¬sagradáveis - das pessoas pequenas, vis, tímidas, perver¬tidas, covardes e solitárias, ou das passionais, sensuais e desequilibradas. Quando elas fazem qualquer tentativa de ser boas, percebem em dois tempos que precisam de ajuda. Para elas, é ou Cristo ou nada. É tomar a cruz e segui-lo — ou cair no desespero. São elas as ovelhas per¬didas: ele veio especialmente para encontrá-las. São elas (num sentido muito verdadeiro, e terrível) os "pobres": ele as declarou bem-aventuradas. São elas o "bando de esfarrapados" com os quais ele caminha - e é claro que os fariseus ainda dizem, como disseram desde o início: "Se o cristianismo fosse algo sério, essas pessoas não se¬riam cristãs!"


“Mas, se você é um dos pobres - envenenado por uma criação miserável numa casa cheia de ciúmes vulga¬res e brigas gratuitas -, sobrecarregado, independente¬mente da sua vontade, por uma abominável perversão sexual - espicaçado noite e dia por um complexo de in¬ferioridade que o leva a perder a paciência com seus me¬lhores amigos -, não se desespere. Ele está bem ciente de tudo isso. Você é um dos pobres que ele abençoou. Ele conhece a máquina ruim que você tenta dirigir. Vá em frente. Faça o possível. Um dia (talvez em outro mundo, mas talvez muito antes disso) ela jogará essa máquina no monturo de ferro-velho e lhe dará uma nova. E en¬tão você poderá nos surpreender a todos — e inclusive a si mesmo: pois terá aprendido a dirigir numa escola bem difícil. (Alguns dos últimos serão os primeiros, e alguns dos primeiros serão os últimos.)”


“Deus se fez homem para que as criaturas se tornassem filhos: não simples-mente para produzir homens melhores do tipo antigo, mas para produzir um novo tipo de homem.”


AS NOVAS CRIATURAS

“O que acontece com Cristo e conosco é algo seme¬lhante a isso. Quanto mais tiramos do caminho aquilo que agora chamamos de "nós mesmos" e deixamos que ele tome conta de nós, tanto mais nos tornamos aqui¬lo que realmente somos. Ele é tão grande que milhões e milhões de "pequenos Cristos", todos diferentes, não se¬rão suficientes para expressá-lo plenamente. Foi ele que os fez a todos. Ele inventou — como um escritor inventa os personagens de um romance - todos os homens di¬ferentes que vocês e eu devemos ser. Nesse sentido, nos¬sos verdadeiros seres estão todos nele, esperando por nós. De nada vale procurar "ser eu mesmo" sem ele. Quan¬to mais resisto a ele e tento viver sozinho, tanto mais me deixo dominar por minha hereditariedade, minha criação, meus desejos naturais e o meio em que vivo. Na verdade, aquilo que chamo com tanto orgulho de "eu mesmo" é simplesmente o ponto de encontro de miríades de cadeias de acontecimentos que não foram ini¬ciadas por mim e não poderão ser encerradas por mim.”

CRISTIANISMO PURO E SIMPLES

“E só quando me volto para Cristo, quando me entrego à personalidade dele, que começo a ter uma verdadeira personalidade minha.”


“Entregue-se, pois assim você encontrará a si mesmo. Perca a sua vida para salvá-la. Submeta-se à morte, à morte cotidiana de suas ambições e dos seus maiores desejos e, no fim, à morte do seu cor¬po inteiro: submeta-se a ela com todas as fibras do seu ser, e você encontrará a vida eterna. Não guarde nada para si. Nada que você não deu chegará a ser verdadei¬ramente seu. Nada que não tiver morrido chegará a ser ressuscitado dos mortos. Se você buscar a si mesmo, no fim só encontrará o ódio, a solidão, o desespero, a fúria, a ruína e a podridão. Se buscar a Cristo, o encontrará; e, junto com ele, encontrará todas as coisas.”

[1] "The longest way round", citação tirada de Cristianismo puro e simples.
[2] "There are no ordinary people", citação tirada de "The Weight of Glory", sermão profe¬rido por Lewis em 8 de junho de 1941.
[3] "Poisoned by a wretched upbringing", citação tirada de Cristianismo puro e simples.
[4] "How monotonously alike", citação tirada de Cristianismo puro e simples.

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